
Acrílica sobre papel.

Acrílica sobre papel.

A terra rachou. Craquelê. Assopra. Assombro. Assoprou. Vento assombrado. No mormaço corre (às vezes) o rio fantasma. Miragem em leito morto. Extinto. Seco. Galhos nus. Ossadas peladas. Bovinas. Despidas. Desencarnadas. Desavergonhadas. Desesperadas. Deitadas. Espalhadas. Sossegadas. Paisagem Mortuária. Ossário. A areia parou. Ampulheta cheia. Vazia. Tempo. A sombra do relógio do Sol ali como lá estava antes. O tempo parou. A clepsidra emperrou. Sem combustível. Sem movimento. Sem tempo. Verbo. Gira vida, roda vida, não, não gira, roda fixa, presa, quebrada, parada, pura, cristalina.
Neste lugar, onde quem vê, declara em lágrima, que é onde tudo acaba. Se espichar a orelha, se imitar o cão, o chacal, a hiena, o carniceiro, o rato de buracos na cova fresca, se espichar bem a orelha, calibrar o ouvido e bater bem o martelo no tímpano ouvirá o que não deveria ouvir.
Festa!
Numa casa feita à maneira da terra, lama, madeira e palha, eco, som festivo.
Família à maneira da terra. Homem, Pai, feito de calos, nós, osso e pele seca esticada, que verga, dobra joelho, senta nos calcanhares, Aquiles zumbi a pitar e a sorrir. Mulher a qual não sorri pois foi construída em pilhas de partos duros com surras justas a ranger juntas. Pariu uma duzia(crê), sobram sete. Dos sete, há seis. Mesmo que lá estivesse o que falta, que diferença faria?
Que diferença fazem?
Não são mamíferos individuais, apenas a ninhada. Porquinhos. Cachorrinhos. Alterna em escala de idade e de altura, com mais semelhanças do que singularidades, como o tamanho, menor do que deveriam ter. A Natureza é justa padeira, só faz pão com a massa que lhe dão. Se lhe falta fermento, aos homens sobra sofrimento.
O casal mais os meninos comemoram.
O que? Comemoram? Não é data de Santo. Nem da Pátria. Nem aniversário. Como se marcassem o dia que nascem. Se não conhece dia em que se morre, por que ser ciente do dia em que se nasce? Mistério para frente, mistério para trás. Hoje é hoje. O que se leva é o se que traz.
A família celebra, pois se come.
Come-se como nunca se comeu .
O caldeirão ferve. Fogão de lenha. O cheiro é bom. Há restos de feijão. Raízes são amargas. E há mais do que isso( apesar da subtração de sete em seis) Há o que pouco há nessas mesas, a figurar nos pratos, a ocupar as bocas e a estufar os intestinos.
Há carne.
A maior parte virou carne seca. Esfregada em sal, a manta carnosa, alvas costelas entre o humor rúbeo, estendida em varal, ao sol, esperando a completa desidratação. Ovos depositados das varejeiras oportunistas chocam. Sua vida verminosa é curta. O sal não é amigo. A negação antológica precipita os vermes ao chão. Formigas de fogo num papel imaginativo de alegorias punitivas, ferozes e religiosas de mundos onde os pecados se relevam para o Destino os aguardam como bebês não batizados para puni-los por pecados hereditários.
Os anelídeos moles a enfrentar duramente o sal da carne e tentam prevalecer na substância, também perdem, pois sua resistência é recompensada pelo bico de pássaros pretos atraídos a ciscar pendurados essas costelas sob o Sol .
Se a rotina biológica é armadilha para certas vidas, também o é para outras.
Os meninos escondidos com atiradeiras acertam os emplumados. Toda carne é comida. Toda alma, talvez um parasita, é libertada ou perdida.
No fogo, aquilo para comer está pronto está pronto.
O Caldeirão é retirado. Eis o manjar que há de curar o vácuo que cresce e os quebra, dobrando-os ao meio, ocos canudos de pito, desde quando… não lembram quando fome não havia, não os movia, não os cometia. O Pai quer ser o primeiro. Ele vem. Fuça com concha a procurar o maior, o melhor pedaço. A Mãe ruge. Expulsa. Determina. Afinal, a solução foi dela. Então, o melhor é dela.
Apesar dele, o esposo, ter contribuído. Com a semente. E com a lâmina.
Houve um dia que não bastou falo. Nem o punho. Nem o cinto para o homem da casa ser homem. Nem a surra. A mulher tinha que aprender. Mentira nua. Então, ele, mais forte, Deus fez o homem mais forte, da lama, do barro, do húmus, do esterco, por um motivo, esse motivo, o homem a arrastou até o cepo onde se cortava a lenha, onde se furavam os porcos, quando se tinha porco, onde decepava as galinhas, quando tinha galinha, e para lhe ensinar, não não ensinou nada, mas o facão foi bom professor.
Ele cortou dois dedos dela. Rápido. Num cair só.
Daí, depois do grito, que calou, depois da lágrima, que secou, depois sangue, que estacou, a Mãe teve a idéia, pois era mãe e deve alimentar sua casa com dedos ou sem dedos.
E alimentou com dedos.
Recolheu-os antes do furto de bicho sorrateiro. Jogou-os na água suja que fingiam ser comida e esta se fez comida de fato.
Comeram sopa daqueles dedos até estes desintegrarem na fervura. Até só sobrar a lembrança da carne naquela água quente a borbulhar.
A Mãe pensou em se cortar novamente, no entanto, com menos dedos ficava difícil fazer as coisas. Do marido, fora de cogitação. Ele, por enquanto, era forte. Invencível!
Os meninos! Eram tantos a sua prole. Havia tantos dedinhos. Um cada por més, muitas sopas, muitos meses, até acabarem os meses…
Contudo, o mundo, tão bruto, foi gentil ao intento materno: Um dos menores, o mais mirrado, o que menos se apostaria sucesso em anos percorridos caiu febril, tremendo e vendo fantasias.
A Mãe conferenciou com o Pai e este, mascando mato, vício campesino, acatou o plano feminino, que logo, num egoismo primário e masculino, tomou a autoria para si, se achando-se sábia, e fez garras com as mãos duras e calosas e com as garras fez um adamantino torniquete.
O torniquete foi simples, rápido e justo na imitação do espasmo da forca.
Cada cumbuca cheia. Sopa nutritiva de caldo de carne fraterno. Cada irmão se satisfeito. O Pai jura vingança para si próprio contra a Mãe que lhe negou o melhor pedaço, porém, o estomago cheio lhe dá o esquecimento.
Terminado o trabalho de distribuir alimento ao seu parceiro e a cada rebento, a Mãe retira com a concha de metal o seu prêmio por ter provido a família um belo sustento com seu gênio.
Sem olhos, a sopa escorre por entre as orbitas vazias e pelo escancarado esgar.
A deliciosa cabeça de seu filho.

Ela ergueu a panela na direção do seu convidado. Antes que ela dissesse algo ele olhou a panela de arroz, a mão que a segurava, e previu a frase, referente à sua ação, diluída no ar. Depois caminhou a percepção em todo ambiente e voltou o olhar ao arroz. Foi aí que começou a chover.
- Preciso ir embora!
Aquele senhor poderia ser da classe de homens supersticiosos que ao sentir uma pontada estranha no coração, traduzisse aquilo como presságio ruim, que ainda sim não justificaria a grosseria com que se levantou, atropelou a cadeira que fora do seu lugar obstruía sua passagem, e se lançou na chuva, sem se despedir de qualquer pessoa da casa. Da mesa à rua, em poucos passos. A anfitriã seguia-o com os olhos enquanto a mão sustentava o arroz na direção do lugar agora vazio do convidado.
As duas outras pessoas que participavam do jantar seguiram-no também com olhar e logo depois se deslocaram, as duas, até a janela da sala para ver aquele singular convidado desaparecer no incipiente temporal.
Raios assustaram seus olhares curiosos. Uma delas abriu a boca para dizer algo e concomitantemente a energia caiu. Então tudo pareceu acusar-lhes de que por irresponsabilidade algo precioso havia escapado das suas mãos; mas, no entanto, não compreenderam essa sensação e em reposta buscaram a outra personagem que à mesa permanecera. O escuro profundo, riscado pelos raios que violentamente pareciam fotografar toda a situação, incentivava o silêncio. Revelava, entretanto, que as duas mocinhas sentiam pena, onde na verdade não existia compreensão.
- Mamãe? – disse uma das duas.
Nada respondeu.
- Quem era na verdade esse homem?
- É melhor vocês se deitarem, deixem as louças, amanhã eu cuido de tudo isso.
- Mamãe? Quem era aquele homem?
Ela respondeu com o tilintar dos talheres.
Raios.
Escuro profundo.
Silêncio.
Ela ia da pia à mesa de jantar, tateando as coisas que a intuição previa no caminho. Às vezes parava, quando surgia algum pensamento estranho; aí o resolvia e retomava a caminhada. Até que, como se só naquele instante compreendesse a pergunta de uma das filhas, resolveu ir até a sala e explicar quem era aquele homem e o que queria dizer tudo aquilo. Quando se aproximou do sofá a energia voltara. A luz iluminou uma sala vazia. Enquanto no escuro e perdida em pensamentos, nem percebera que as filhas tinham ido para o quarto e provavelmente já estariam dormindo.
Suspirou.
E foi melhor assim: não contar nada sobre o significado de tudo aquilo. Reviu toda a sua vida e um monte de coisas diversas que em nada convinham à situação, sentada na sala, enquanto a tempestade se ia para dar lugar a uma leve garoa. E adormeceu.
- É. Então será assim… Não há outro meio mesmo? Pelo menos termine o jantar e pronto, dessa vez pode ir de vez!!! – disse, em sonho.
“Cucurucucu Paloma”
Interprete: Caetano Veloso
dedicado a F.
